Considerações Geopolíticas sobre a Península da Coreia

 

* Marcelo Hecksher

   

       Considerando-se as origens, poder-se-ia dizer que a Coreia do Norte é para a Coreia do Sul o que representa Taiwan para a China.

      Ambas foram consequência da divisão do mundo em áreas de influência para o pós-guerra, divisão definida nas conferências de Yalta e Potsdan.

      Nessa divisão, a China passou a ser considerada área de influência norte-americana, em função do apoio do governo americano ao governo republicano de Chiang-Kay-Shek. Durante a Guerra, o Exército Vermelho, então sobre o comando de Mao, lutou como aliado dos republicanos.

      A Europa Oriental foi designada como área de influência soviética. Norte da África, área de influência Inglesa e Francesa. Indochina, influência Francesa e Inglesa nas colônias anteriores à Guerra (Índia, por exemplo).

      Na Segunda Guerra Mundial, os coreanos lutaram ao lado das tropas chinesas contra o Japão. Isso fez com que os aliados aprovassem e apoiassem a Independência da Coreia, sob o jugo japonês, a partir de uma resolução firmada na Conferência do Cairo em 1943.

      Contudo, na divisão de áreas de influência, em Potsdan, a Coreia foi dividida em Norte e Sul, a partir do paralelo 38º N. O Norte foi determinado como área de influência soviética e o Sul como área de influência norte-americana.

      A artificialidade da divisão do mundo em área de influências, como sabemos, não sobreviveu aos movimentos nacionalistas e anticolonialistas. Algumas regiões, mantidas sob o jugo da ditadura comunista, resistiram até a queda do muro de Berlin. As colônias caíram antes.

      No final da II Grande Guerra, os soviéticos, até então ausentes nos combates na Ásia, invadiram a Manchúria, a mais desenvolvida província chinesa, que se encontrava sob o domínio japonês, utilizando-se do governo títere de Manchuco com o imperador Aisin-Gioro Puyi no poder. Os soviéticos massacraram os japoneses e entregaram a província para o Exército Vermelho de Mao.

      Essa manobra não havia sido prevista pelos americanos. Além de possibilitar a presença dos soviéticos na rendição japonesa no USS Missouri, possibilitou aos comunistas chineses iniciarem a marcha da revolução, que culminou com a expulsão dos republicanos e seus aliados norte-americanos, para Taiwan.

 

 Esta ilha, que durante a Guerra estava sob o domínio japonês, foi tomada pelos republicanos chineses do Kuomintang, após a rendição japonesa. Desde 1947, o Generalíssimo impôs a ilha, com o beneplácito dos EUA, um regime ditatorial, baseado no pressuposto que os chineses da ilha haviam cooperado com os invasores japoneses. Um marco, lembrado até hoje na ilha, foi o chamado incidente de 29 de Fevereiro de 1947, quando o Kuomintang massacrou 20.000 taiwaneses.

Delegação japonesa no Missouri.

 

     

      Assim, a China, em 01 de outubro de 1949, deixava de ser área de influência americana, com a vitória da Revolução Comunista e a proclamação da República Popular da China, por Mao.

      A reação americana a perda de influência na Ásia passou a ser uma atitude pró-ativa em relação a qualquer tentativa de expansão do regime comunista na região. O mesmo aconteceu com os ingleses, fomentando a revolta no Tibet a partir da Índia.

      A Península da Coreia, terminada a Segunda Guerra Mundial, foi ocupada por tropas estrangeiras, seguindo o acordo de Potsdan: os soviéticos acima do paralelo 38 e os norte-americanos abaixo.

      Essa ocupação tinha como pretexto garantir a liberdade da Coreia, eliminando-se, por completo, qualquer possibilidade da presença japonesa.

      No entanto, essa divisão e a ocupação militar refletia o início da Guerra Fria, ou seja, o início da disputa imperialista entre as duas superpotências. Ao ocupar a região norte, os soviéticos pretendiam expandir seu modelo socioeconômico e político, enquanto que os EUA pretendiam consolidar sua influência em regiões consideradas estratégicas no extremo oriente. Já era possível prever que a unificação não ocorreria, os interesses das potências separaria os coreanos.

      Em 1947, formaram-se dois governos, sendo que apenas o do Sul foi reconhecido pela O.N.U. No ano seguinte constituíram-se dois Estados autônomos: A República Popular Democrática da Coreia (ao Norte com o sistema comunista) e a República da Coreia (ao Sul, com o sistema capitalista). Em 1949, a maior parte das tropas estrangeiras retirou-se do país.[1]

      Após várias tentativas de golpe sobre o regime de governo da Coreia do Sul, os Coreanos do Norte cruzaram o Paralelo 38 e invadiram a Coreia do Sul, em 25 de julho de 1950, e tomaram Seul no mesmo dia. Seul fica a cerca de 40 km da fronteira.

 

 

      Os Coreanos do Sul e os americanos que os apoiavam, foram empurrados pela Península e cercados em Pusan, ao sul da Península.

      Em 15 de setembro, os americanos, sob o comando do General Douglas de Mac Arthur, desembarcaram em Inchon, cidade no litoral a Oeste de Seoul. Essa campanha, não só reconquistou o Sul como prosseguiu por todo o território do Norte, só parando na fronteira com a China, no Rio Yalu.

 

 

      A República Popular da China não queria ter os americanos na sua fronteira. Aos soviéticos, tidos como patrocinadores do governo chinês, não interessava ver a influência norte-americana se fortalecer na região.

      Em 7 de novembro de 1950, a China entrou na guerra, socorrendo seus aliados com 5 divisões de infantaria. Mesmo tendo sido considerada agressora pela ONU, os chineses e norte-coreanos prosseguiram, levando a guerra a todo o território do sul.

 

Enfrentando o frio e os chineses

 

      Nesse mesmo mês, os americanos desembarcaram em Wosan, na Costa Leste da Coreia do Norte, pretendendo dominar a área dos reservatórios de Chosin. Foram rechassados pelo 13º Exército Chinês, sendo perseguidos em direção ao Sul. Nesse combate morreram 718 e foram feridos 3.508 mariners.

      Em janeiro de 1951, após reequipar suas forças, os americanos iniciaram um poderoso contra-ataque, em longa frente, com amplo suporte de fogo de artilharia, que empurrou os norte-coreanos e chineses de volta a linha do Paralelo 38. Os chineses e seus aliados sofreram mais de 70 mil baixas nesse período.

      Os combates, por longos 18 meses, passaram a ser caracterizados, até o armistício, por pequenas escaramuças, em ações de defesa dos pontos estratégicos conquistados. A Guerra assumiu a feição da guerra de trincheiras da Primeira Grande Guerra, enquanto transcorriam as negociações na ONU, até mesmo pela característica de grandes perdas de vida, de lado a lado. Temia-se o desencadeamento de novo conflito global.

 

MIGs chineses decolando para o combate

 

      Em 27 de julho de 1953 foi assinado o armistício. A Guerra da Coreia é interrompida com os limites das duas Coreias, mais ou menos, como em seu início.

     A assinatura desse armistício não significou o fim do conflito. Esse é latente, desde então, na península. Inúmeros incidentes têm sido registrados.

      Túneis escavados sob a fronteira, a partir do Norte, foram interceptados pelo Sul. Incursões de tropas de comando foram executadas. O aquartelamento americano na Zona Desmilitarizada é chamado de Camp Boniface, capitão do exercíto americano, morto por incursores norte-coreanos no local.

      Na vila de Panmunjon, na chamada Zona Desmilitarizada, estão localizadas as instalações da chamada Área de Segurança Comum. Também nesse local está a chamada “Ponte do Não Retorno”. Por ela passaram os Coreanos, do Norte e do Sul, definindo de que lado iriam permanecer, após o fechamento da fronteira. O resultado é o drama social vivido por inúmeras famílias, separadas por um conflito que dividiu, por razões alheias à vontade do povo, famílias que nunca mais se encontraram.

Ponte do Não Retorno

 

 

      De um lado e do outro, existe uma enorme concentração de tropas e armamento diverso. As atitudes de confronto entre os sentinelas são constantes.

      A agressividade entre os sentinelas é mais sentida no lado Sul. Na foto abaixo, observe-se o sentinela do Sul em atitude defensiva de luta marcial, com apenas metade do corpo visível na esquina do barracão. Nessa posição permanecem todo o dia. No lado Norte, os soldados são menos “marciais”, tanto pelos uniformes monótonos (o mesmo para qualquer ocasião), quanto por seus corpos desgastados pela pouca comida e, certamente, uma vida na caserna bastante severa.

 

 

      Os barracões de negociação são pontos turísticos de visitas, no lado da Coreia do Sul. A “fronteira”, no interior desses barracões, é delimitada pelo fio do microfone sobre a mesa.

 

Barracões de negociação

 

 

Quando da visita ao interior do barracão, de um lado e de outros, um sentinela entra junto e fecha a porta de acesso do lado oposto. É comum os norte-coreanos chegarem até as janelas laterais e colarem seus rostos no vidro para examinar os visitantes.

 

No interior de um barracão

 

     

De cada lado da fronteira existe um mastro com a bandeira nacional. A cada aumento do mastro de um lado, correspondia o aumento de bandeira do vizinho. Assim, na RDPC está localizado o maior mastro de bandeira do mundo, com cerca de 200 m de altura.

Bandeira da RDPC

 

   

      Os prédios avistados ao lado da bandeira são de uma cidade fantasma contruída pelos coreanos do norte. À noite as luzes da cidade e dos prédios são acesas, para aparentar algum movimento. Essa cidade se opõe a vila de agricultores montada pelos coreanos do sul, a vila de Panmunjon. Os coreanos do sul são pagos pelo governo para residirem na vila, dando à vila um aspecto de normalidade e produtividade.

      Nas montanhas ao fundo da foto da bandeira, são posicionados grandes autofalantes que transmitem, durante o dia e em ocasiões especiais (visitas importantes do lado Sul, por exemplo), hinos, músicas marciais e discursos do “Grande Líder”.

Essas ações de propaganda são contrapostas pela contra-propaganda do Sul, com altofalantes exortando o norte-coreanos para as diferenças da vida nos dois países.

      Quem conhece a Coreia do Sul e conviveu com o seu povo, tem a convicção que a grande maioria deseja a reunificação, como ocorrida na Alemanha pós-muro de Berlin.

Quais os fatores que podem contribuir para esse estado beligerante latente? Contribuir a ponto do governo do Sul realizar treinamentos sequenciais de evacuação da capital, prevendo um ataque de surpresa do Norte; para que se mantenha em quartos de hotel cordas para possibilitar a fuga pelas janelas; se mantenham ninhos de metralhadora e outras posições defensivas ao longo das estradas que demandam a fronteira; se admita mais de 30 mil efetivos norte-americanos em bases em terra, inclusive na capital; se admita, como uma situação normal, militares americanos em farda de combate camuflada transitando no Lotte, o mais sofisticado shopping center de Seoul, como se estivessem em Coronado, na Califórnia.

      A situação de beligerância na Península da Coreia pode ser considerada como conveniente:

ü    Para os EUA, uma vez que lhes permite manter 37 mil efetivos na península, sem considerar os efetivos dos navios de guerra. Assim, se mantém influente na área.

ü    Para os militares da Coreia do Sul, o estado de beligerância lhes confere status e distinção nacional que não teriam em outra situação. Obriga o governo a manter vultosos investimentos nas Forças Sul-Coreanas, acarretando bom pagamento e prestígio.

ü    Para os Chineses, uma vez que mantêm os coreanos do sul e norte-americanos afastados da fronteira da China.

      Tal situação não interessa, contudo, ao povo coreano, do sul e do norte. O armistício realizado, como já foi dito, separou famílias desde aquela data. Não existem razões culturais, históricas, econômicas ou políticas, razoáveis, para que a unificação não seja tentada. Assim pensava o ex-presidente da Coreia do Sul, Kim Dae Jong. Durante o seu governo a fronteira foi aberta e famílias separadas a mais de 50 anos puderam se reencontrar.

      Kim Dae Jong só foi eleito na sua quarta tentativa. Na sua terceira tentativa, estava no Japão, realizando uma conferência durante a campanha. Como sua plataforma política tratava da reunificação, sendo as Forças Armadas Sul-Coreanas contrárias, ele foi sequestrado no Japão, pelo Serviço de Inteligência sul-coreano, e torturado, para confessar seu envolvimento com políticos do norte. Essas torturas lhe valeram um defeito na perna, que carregou pelo resto da vida.

      Ao ser eleito presidente na sua quarta tentativa, muito favorecido por escândalo de corrupção no governo, dizia-se que as Forças Armadas não o deixariam assumir. Em atitude de verdadeiro estadista, nomeou o chefe do serviço de inteligência que o havia torturado como Ministro da Defesa. Assim governou e pôs em prática seu plano de reunificação, à revelia das Forças Armadas e dos EUA.

      Na tentativa de se reeleger, foi derrotado, pelas mesmas razões da sua vitória: seu filho foi envolvido em escândalo de corrupção e ele desistiu da reeleição.

      No Norte, pode-se dizer que o país é prisioneiro de seu próprio regime ditatorial. A irmã do Sul é desenvolvida economicamente. O Norte é pobre e seu povo totalmente dominado pelo espírito do Grande Líder e por seu filho e sucessor. O medo e a vigilância policial são constantes, aliados à propaganda sustentada por ações belicosas contra o sul, como o recente ataque ao navio sul-coreano, mostrado ao povo (sem nenhum acesso a mídia ocidental ou do sul) como reação a ataque imperialista.

      Assim como o povo chinês só se considerará totalmente soberano quando anexar Taiwan ao território continental, o coreano só se considerará completo quando reunificar a península.

      As razões de ambas as separações remontam à divisão do mundo para o pós-guerra, feita pelos aliados em Yalta e Potsdan.

 

Bandeira da reunificação das Coreias.

Utilizada em eventos esportivos em que participam juntas.

 

* O autor é Coronel-Aviador e Mestre em Ciências Aeroespaciais. Foi Adido das Forças Armadas na China e na Coreia.

 


 

[1]  Retirado do site http://www.historianet.com.br/ acesso em 25 de maio de 2010.