* Alex Corsini Não, desde que a Europa não tentem cercá-la A recente combustão no Cáucaso e a conseqüente crise entre Rússia e Ocidente trouxeram de volta ao proscênio lembranças de conflitos da Guerra Fria e provocaram preocupações sobre se a Rússia constitui um importante, mas de caráter difícil, vizinho ou, então, uma ameaça para a Europa. Após o término da Guerra Fria, a dissolução da União Soviética e a derrocada do Pacto de Varsóvia, se seguiu, durante a década de 1990, um período de importante enfraquecimento diplomático, político, econômico e militar de Rússia, paralelamente com o indiscutível predomínio mundial dos EUA. Neste período, materializou-se um esforço norte-americano para desatrelar quase o total das antigas repúblicas socialistas soviéticas da influência de Moscou e sua transformação em um bloco de democracias do tipo ocidental, atreladas agora à biga do novo Império, com a finalidade a consolidação da influência norte-americana na Eurásia. Naquela época, Moscou foi obrigada a aceitar o que lhe impunha sua fraqueza. Mas a ocidental - principalmente, norte-americana - política, em sintonia com a amargura da perda de sua posição imperial, provocaram fortes sentimentos de anti-americanismo na Rússia. Os atritos e tensões entre russos e norte-americanos de hoje constituem conseqüências naturais de um processo composto e dinâmico de contínua reconformação do poder de correlacionamento internacional. A econômica e, conseqüentemente, política ascensão dos países do grupo denominado Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) embaralha, novamente, o "baralho mundial", conformando novos equilíbrios mundiais e periféricos. Tendo como arma básica seus recursos naturais (os quais, reconhecidamente, sabe utilizar de forma muito agressiva), a Rússia reivindica maior influência, papel, respeito, assim como reconhecimento de que representa e constitui uma potência mundial. Ambições de superpotência Hoje o Ocidente (ou pelo menos os EUA e vários países europeus, principalmente na Europa Central e Oriental), estão preocupados com o mix de déficit democrático, tendências hegemônicas e esforços de reconquista de regiões de tradicional influência por uma superpotência que funciona ainda com base na lógica do "poder duro" como meio de exercício de política externa. Quão exata é esta percepção? É fato que, historicamente, a Rússia constitui uma superpotência com ambições hegemônicas e tendências expansionistas. Paralelamente, é dominada por uma permanente insegurança, conseqüência, em grau elevado, da experiência histórica. Entre as prováveis explicações sobre o comportamento da liderança russa está incluída a amargura sobre o passado recente e a saudade do período quando a Rússia/União Soviética era uma das duas superpotências, o desejo de reconstituição da influência russa e do poder, assim como a consolidação dos interesses vitais russos. São compatíveis os alvos da política externa russa com aquelas da Europa e dos EUA? Obviamente, existem pontos de atrito. Não é compreensível, até mesmo na "zona cinza" entre a pós-moderna Europa e a ex-área soviética, não serem respeitadas as opções de um país independente, no que diz respeito seu futuro. E, embora, possa até ser compreensível que EUA e Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) - leia-se a Europa - não queiram conceder à Rússia o direito do veto à ampliação da Otan, por outro lado, não é realista não esperar uma forte reação da Rússia contra o eventual cerco geopolítico que EUA e Otan tentam erguer em torno dela. Portanto, seria prudente que todos os lados envolvidos se adequassem aos novos fundamentos geoestratégicos e revisassem alguns de seus alvos, considerando os interesses e as sensibilidades do outro lado. Neste âmbito, considera-se que, entre finlandização por um lado, e integração à Otan por outro, existem, também, outros meios e métodos de defesa dos interesses da Geórgia. Interesses comuns O novo presidente dos EUA, Barack Obama, não é produto da Guerra Fria (embora muitos políticos e autoridades norte-americanas sejam) e espera-se que não enfrentará as relações entre Rússia e EUA como resultado de conta zerada, livre de preconceitos ideológicos do passado. Em todo caso, os interesses comuns dos dois países continuam sendo importantes em questões como, por exemplo, o programa nuclear do Irã, o terrorismo (islâmico) internacional, a estabilidade do Afeganistão, o galopante despertar do "dragão chinês" e, salvo tendências alopradas de "exportação da democracia", avalia-se que o custo de uma escalada funcionará dissuasivamente para ambos os lados. Neste período de busca por novos equilíbrios internacionais, o exigível é o eficaz gerenciamento das relações bilaterais por intermédio da compreensão pelo lado norte-americano que existem ameaças muito mais sérias do que a Rússia, enquanto Moscou e Kremlin, ainda que ligeiramente "embriagados" pelo reconquistado poder, deverão evitar inúteis declarações duras e ações de "provocatsia". Do ponto-de-vista de capacitações, nem a dimensão da economia russa (particularmente, após a eclosão da crise financeira e a considerável queda dos preços de energia), nem as tendências demográficas (queda anual de população em 0,47%) e sequer as possibilidades militares da Rússia permitem apostar, suficientemente, na existência de ameaça russa contra a Europa (ou ao Ocidente, de um modo geral). Com relação ao setor energético, o qual constitui a carta de Moscou capaz de decidir qualquer jogo, a Europa deverá reduzir, em algum grau, sua dependência energética, enquanto, em nível político, é imperativa a necessidade de aplicação das previsões da Convenção de Lisboa em temas de política externa da União Européia, para que seja fortalecida sua presença internacional (algo indispensável para uma relação equilibrada, pois a Rússia respeita o poder). Além disso, está claro que existe uma, essencialmente, inevitável relação de interdependência entre Europa e Rússia, com um dos lados necessitando energia e o outro, capitais para modernizar sua infra-estrutura energética e o crescimento dos demais setores da economia (por mais que as autoridades russas se esforcem para subestimar as necessidades do país). Ninguém espera que a Rússia seja um vizinho fácil. Mas constitui um indispensável parceiro e isto obriga a Europa a sair em busca de uma outra forma de coexistência e mutuamente benéfica cooperação com a Rússia. Porque, caso contrário, o custo de uma queda-de-braço bélica, assim como de oportunidades perdidas, será grande para ambos os lados. * O autor é geopolítico e analista internacional
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