* Mauro Barbosa Siqueira
Os estudos estratégicos são a expressão disciplinar do estudo científico do uso da força, do fenômeno bélico. A discussão científica do fenômeno bélico se dá no contexto político do dilema da segurança. Trata-se do resultado racional da situação em que não existe governo, isto é, não existe quem seja capaz de impor a solução pacífica entre diferentes grupos. Nesta situação, que também é descrita como sendo a situação de anarquia, cada grupo humano só tem a certeza de poder dispor de seus próprios recursos e força para garantir sua sobrevivência. Inseguro diante dos outros grupos humanos, busca fortalecer-se para fazer-se mais seguro. Porém, ao se tornar mais forte, agrava seu papel com um fator de insegurança para os demais grupos que, a seu turno, buscam fortalecerem-se. Assim, instala-se o dilema da Segurança, em que o fortalecimento de certas concorrências entre os grupos pode consumir recursos sem que se incremente a segurança dos grupos. A situação descrita explica porque a consideração política primordial é o uso da força, tanto para os primitivos quanto para os Estados da primeira década do Século XXI . Em contraste, o estudo científico do bélico se confronta com o fato de que a História da espécie humana é o registro de uma enorme diversidade das possibilidades técnicas do uso de armamentos, das formas de luta e da produção social de forças. Todos estes elementos ainda se modificam em função de diferentes circunstâncias de combate. Tendo caracterizado o contexto político e a dinâmica de possibilidades combatentes, cabe falar de sua articulação, isto é, do contexto estratégico dos estudos do bélico. A explicação da condição de possibilidade da “estratégia” como distinta do combate foi um dos primeiros resultados científicos dos estudos estratégicos. É importante que se identifique como o uso da força na guerra é distinto do uso de forças no combate. Coube identificar os preceitos dos teóricos assimilados pela Doutrina Militar Brasileira, comparando os documentos com as obras estudadas de Clausewitz, Sun Tzu e Musashi, para assinalar pontos comuns e aspectos discordantes. O texto propriamente dito divide-se em quatro partes: primeiro discorre sobre alguns dos elementos mais importantes do pensamento dos estrategistas estudados, que foram julgados pertinentes aos documentos político-doutrinários selecionados e analisados, estritamente, sob os ditames de capítulos de políticas e de manuais; a segunda parte faz uma introdução histórica do conflito, que apresenta em grandes linhas as origens, as causas, o contexto geopolítico e a dinâmica evolução tática do fenômeno bélico do Yom Kippur; a terceira seção contextualiza a Guerra de Outubro sob a trajetória dos propostos, em paralelo ao estudo dos teóricos supracitados e do Direito Internacional dos Conflitos Armados (DICA); a última apresenta uma conclusão com algumas considerações finais a respeito dos ensinamentos colhidos com a guerra supracitada. Portanto, faz-se mister iniciar este trabalho de pesquisa, abordando os aspectos históricos antecedentes ao conflito propriamente dito.
Súmula Histórica
2.1 Origem e Causas do Conflito
As disputas por terras são antigas entre israelenses e árabes. Consta que Isaque, cujos descendentes são os judeus, herdaria a Terra Prometida e que Ismael, do qual provém a linhagem árabe, também receberia idêntica herança de Deus. Os hebreus migraram, em 1700 a.C, para o Egito sendo escravizados por 400 anos. Retornando à Palestina, dividiram-se em dois reinos: Judá e Israel e viveram vários períodos de guerras. Em 721 a.C, os assírios destruíram o Reino de Israel e os babilônicos o de Judá em 586 a.C. Em 70 d.C., Roma destruiu Jerusalém e expulsou da região os judeus, que se espalharam pelo mundo na segunda Diáspora. Entrementes, os muçulmanos (seguidores do Islamismo) foram expulsos dos seus domínios pelas Cruzadas. Em 1882, surgiu o movimento Sionista com Theodor Herzl, que pregava a criação da pátria judaica na Palestina, e, em 1917, Arthur Balfour declarou o apoio britânico à instalação do “Lar Nacional Judeu”, devido interesses econômicos. À época, quinhentos mil árabes e cinqüenta mil judeus (em1930 eram 300 mil) viviam na Palestina. O Nazismo aumentou a migração acima das “cotas” legais. Em 1939, Londres declarou intenções de estabelecer um Estado Palestino independente, “com ambos os povos compartilhando o governo”. Porém, a ameaça nazista estimulou novamente a migração judaica para a Palestina. Em 1947, a ONU dividiu a Palestina entre árabes e judeus e Jerusalém ficou sob autoridade internacional. Em 1948, a Inglaterra saiu daquela área e Ben Gurion fundou o Estado de Israel, que desagradou aos árabes, iniciando os conflitos. No arcabouço da Guerra do Yom Kippur, houve causas: I) extrapessoais ou políticas (os contendores desejam obter a supremacia na região), econômicas (aquela região é rica em petróleo e água, além da proximidade com o Mediterrâneo e o Canal de Suez), e militares (conquista de novas posições e experimentação de novas armas e táticas); II) intrapessoais, devido ao sentimento belicista dos contendores e a agressividade histórica e latente entre eles; e III) suprapessoais, sobretudo pelas diferenças filosóficas e religiosas entre judeus e muçulmanos. Antes da Guerra do Yom Kippur, ocorreram os seguintes conflitos: 1) 1948/1949 - Primeira Guerra Árabe-Israelense: Líbano, Iraque, Transjordânia (atualmente Jordânia), Egito e Síria formaram a Liga Árabe e atacaram Israel, que vitorioso teve o território expandido. Houve a formação do problema Palestino (árabes perderam terras e uniram-se para reverter a situação). 2) 1956 - Segunda Guerra Árabe-Israelense (Guerra de Suez): Os conflitos nas fronteiras entre Israel e o Egito, além do reconhecimento do Canal de Suez como sendo egípcio, deram origem ao segundo conflito. Apesar do apoio soviético, o Egito foi derrotado e Israel tomou a península do Sinai, saindo da região em 1959. 3) 1967 - Terceira Guerra Árabe-Israelense (Guerra dos Seis Dias): Depois de frustadas tentativas de retomada de territórios sob controle de Israel, pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP), os israelenses ocuparam a Faixa de Gaza, o Sinai, as Colinas de Golan e a Cisjordânia, aumentando seus territórios.
2.2 A Geopolítica e a Evolução do Conflito
A região onde ocorreu o conflito foi governada por hebreus, assírios, babilônios, persas, gregos, macabeus, romanos, bizantinos, árabes, egípcios, cruzados, mamelucos e turcos, denotando sua importância geopolítica e econômica. Terminada a II Guerra Mundial, a URSS defendeu junto à ONU a criação de um Estado judeu e palestino para que pudesse enfraquecer a influência inglesa na região do Oriente Médio. Em 1947, a ONU aprovou a partilha do território entre o Estado judeu (com 56 %) e a Palestina (com 43%), incluindo a faixa de Gaza e a Cisjordânia. Para enfraquecer a presença britânica, Stalin supunha necessário apoiar os judeus, não os árabes. A existência dos Kibutz (cooperativas agrícolas, que funcionavam de forma socialista) aproximava-o com a política soviética. Em 1948, ele percebeu que cometera um erro, passando a apoiar os árabes. Iniciava-se a Guerra Fria e a URSS procurava alastrar sua defesas, pois estava próxima aos países da OTAN. Israel também mantinha relações com os EUA, uma vez que o presidente Truman apoiava a causa e precisava dos votos dos judeus para a eleição de 1948. Note-se que as duas grandes potências do pós-guerra voltavam-se àquela região, sobretudo para Israel. O território israelense estava encravado entre os árabes, tendo a Jordânia e a Arábia ao leste, a Síria e o Líbano ao norte, o Mediterrâneo ao oeste e o Egito ao sul (como limite o Canal de Suez). Ademais, a região demandada tem grande importância estratégica mundial, pois une três continentes: Europa, Ásia e África e é o caminho aéreo mais rápido para atingi-los. O controle da passagem do Mediterrâneo pelo Canal de Suez também figura como um ponto estratégico importantíssimo. Além disto, a região congrega os depósitos de água e petróleo do Oriente Médio e Golfo Pérsico. Cronologicamente, o conflito assim evoluiu: a) 06 de outubro de 1973: Ataques surpresa são lançados sobre territórios sobre Israel, territórios controlados pelo Egito e Síria. Os egípcios atacam seu próprio território no Sinai, o qual está sob ocupação israelense, enquanto a Síria ataca seu próprio território nas colinas de Golan, também sob ocupação israelense. Síria conquista muitas vitórias durante os primeiros dias; b) 11 de outubro: Após as vitórias iniciais as tropas lideradas pelos sírios perderam as colinas de Golan e as tropas israelenses estão agora avançando sobre a Síria; c) 16 de outubro: Após as vitórias egípcias no Sinai, avançando aproximadamente dez quilômetros na península, Israel consegue suas primeiras vitórias e , neste dia estão cruzando o canal de Suez; d) 22 de outubro: Um cessar fogo é coordenado pelas Nações Unidas na frente Síria, onde as duas nações retornaram às fronteiras anteriores à guerra; e e) 26 de outubro: Cessar-fogo na frente egípcia. Conversações lideradas pelos EUA, brevemente resultaram num acordo de desengajamento entre Israel e Egito, o Egito ficou com um território maior que o anterior à guerra, reconquistou controle total nas duas costas do Canal de Suez e uma faixa de terra ao longo da primeira metade do lado oeste do monte Sinai. Forças das Nações Unidas são dispostas ao longo do Canal de Suez para monitorar o acordo.
3 Análise do Conflito Armado
a) Estatura Político-estratégica a.1. Equilíbrio de Poder:
Analisar qualquer conflito ocorrido entre o início da Guerra Fria e antes da queda do muro de Berlim impõe vislumbrar o mundo dividido em dois grandes blocos: capitalista liderado pelos EUA e comunista pela URSS. Na guerra do YOM KIPPUR não foi diferente. Os árabes alinhavam-se com a doutrina dos soviéticos e os israelenses com a dos americanos e ingleses. Com a crise do petróleo, deflagrada no início da década de 70, em função dos conflitos do Oriente Médio, os países árabes passaram a dispor de um importante instrumento de pressão política e econômica contra as potências ocidentais (em especial, EUA e UK), graças ao qual conseguiram alterar a seu favor o equilíbrio de forças na região do Oriente Médio. A Guerra do Yom Kippur não caracterizou vitória para nenhum dos lados, estabelecendo uma posição de impasse. Entretanto, a vitória inicial do Egito e da Síria, ao atacarem de surpresa Israel, em um de seus dias mais sagrados, quebrou o sentimento de invencibilidade dos judeus, transformando-se em trunfo psicológico. Após a guerra, só os EUA apoiaram Israel, que tomou posição menos intransigente. Em 1975, devolveu ao Egito boa parte dos territórios que ocupara durante a “Guerra dos Seis Dias”. Em 1973, Israel já possuía armas nucleares.
a.2 Sistema Político:
O Estado de Israel, criado em 1948, tinha duas capitais: Jerusálem e Tel Aviv. A Constituição não era baseada em documento formal escrito, mas sim em leis básicas provenientes dos costumes e cultura judaicos. A forma de governo era republicana com sistema parlamentarista e o Chefe de Estado era a Primeira Ministra Golda Meir. A Síria tinha capital Damasco e a Constituição era de mar/1973. A forma de governo era republicana com sistema parlamentarista e o Chefe de Estado era o Presidente Hafez Al-Asad. A capital do Egito era Cairo e a Constituição datava de 1971. A forma de governo era republicana com sistema parlamentarista e o Chefe de Estado era o Presidente Anwar Al-Sadat. Após o conflito, o Egito sofreu com custo de vida e desemprego e manifestações foram realizadas contra o governo. Os partidos islâmicos começaram a conspirar contra Sadat, acusando-o de facilitar uma nova dominação estrangeira. Após negociações, Kissinger conseguiu reunir Israel e Egito, em dezembro de 1973, numa conferência pela paz, a qual Jordânia anuiu, porém OLP e demais árabes não. Em novembro de 1977, Sadat visitou Jerusalém, provocando reações de protesto em todo o mundo árabe. Entretanto, o processo de reaproximação com Israel culminou, em março de 1979, com os Acordos de Camp David, pelos quais os EUA negociaram a devolução do Sinai ao Egito. A partir daí, o Egito torna-se o principal beneficiário da ajuda militar norte-americana, destinada a transformar o país em seu principal aliado na região, depois da queda do xá Reza Pahlevi do Irã.
a.3 Sistema Econômico:
Desde sua formação em 1960, o objetivo da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) sempre foi o de estabelecer uma política de controle tanto de suas produções de petróleo, como de independência de seus países frente às grandes potências. Assim, a OPEP conseguiu diminuir o poder das companhias petrolíferas internacionais e estabelecer total domínio sobre a produção e comercialização de seus produtos. É nesse contexto que acontecem as três crises do petróleo: a primeira em 1973-74, a segunda em 1979-80, e a terceira no meio da década de 80. Em 1973, logo após a guerra de Yom Kippur, veio a primeira crise do petróleo. Como as transnacionais perderam o poder de fixar os preços, a OPEP quadruplicou o preço do barril causando grande comoção no mundo todo, principalmente nos países pobres que dependiam da importação de petróleo. As Bolsas de Valores quebraram em vários países, mostrando como o mundo dependia da OPEP. Assim, a política das grandes potências foi de conciliação para evitar maiores complicações. A crise de 73 foi a que teve maior impacto na economia mundial, quando a OPEP decidiu quadruplicar o preço do barril do petróleo (de US$ 2,9 em setembro para US$ 11,65 em dezembro), por influência dos soviéticos. Os países exportadores passaram de um superávit de US$ 40 bilhões para US$ 82,4 bilhões em 1974. Os países importadores, entretanto, tiveram um déficit de US$ 12,4 bilhões. Os EUA não sofreram porque tinham reserva de petróleo e os petrodólares eram investidos no mercado americano. Esse fato não só demonstrou como a OPEP tinha poder, mas também evidenciou a dependência dos países importadores que, sem outra opção, tinham que continuar a comprar petróleo. Até o final da década de 70, os países centrais envidaram esforços com a OPEP para diminuir os preços, porém falharam.
a.4 Conformação Psicossocial:
Em 1973, Israel tinha a seguinte conformação psicossocial: 1) Expectativa de vida elevada (+70a); 2) Instinto de sobrevivência (sionismo); 3) Elevado nível de educação do povo (88% dos judeus e 48% dos árabes alfabetizados); Melhor padrão de vida do Oriente Médio 5) ; 6) Envolvimento e identificação da população com a preservação de Israel devido às origens bélicas de sua criação; 7) Religião judaica (85%), islâmica (11%) e cristã (4%); e 8) Complacência (muita autoconfiança e sentimento de invencibilidade) após a Guerra dos Seis Dias. Em 1973, os árabes tinham a seguinte conformação psicossocial: •Cultura familiar e tribal pouco voltada para os interesses do Estado; •Miscigenação cultural: árabe e egípcia; •Povo pouco comprometido com os Objetivos Nacionais; •Religião: islamismo (maioria sunita), cristianismo (coptas); •Menor renda per capita dentre os países árabes (Egito); •Baixa qualidade de vida e esperança de vida: 53 anos
; e • Sentimento de vingança em decorrência da Guerra dos Seis Dias.
b) Modelo Neoclausewitziano 1. Objetivos
Diante – e durante – a guerra, sopesa-se o que se pode obter, ou o que se arrisca a perder. Isto leva em conta todas as considerações que se pode associar à política; todas as considerações que se pode associar à tática. Portanto, todas expectativas do que se pode obter no combate, isto é, como resultado dos enfrentamentos e a forma como este resultado contribui para que obtenha os objetivos políticos pelos quais se luta, ou dito de outra forma, todas as considerações que se pode associar à estratégia. “A idéia de estratégia inclui integralmente a articulação de política e tática”. É precisamente porque a estratégia usa os enfrentamentos para os propósitos da guerra, que a consideração estratégica inclui integralmente tanto alternativas políticas (não-combatentes) quanto as expectativas e possibilidades táticas do combate. É pela consideração de umas e outras que se pode falar de objetivo de guerra (Zweck) como distinto do propósito político.
Por vezes o propósito político e o objetivo de guerra coincidem – por exemplo, na conquista de uma província. Noutros casos o propósito político em si mesmo não produz um objetivo da guerra imediato. Nesta situação, outro objetivo da guerra será definido que sirva ao propósito político e o simbolize nas negociações de paz. (...) De maneira geral, o objetivo da guerra corresponde ao propósito político e irá se reduzir em proporção a este; e isto será ainda mais pronunciado se o propósito político se tornar predominante. Daí se desdobra sem qualquer inconsistência que as guerras podem ter todo grau de importância e intensidade, desde guerras de extermínio até a simples observação armada. (CLAUSEWITZ, I-1: 81).
É o entendimento da guerra como uma trindade esquisita que permite compreender que o objetivo da guerra, necessário para o propósito político e correspondente à vitória na guerra, pode não estar contido nas forças do inimigo. Há Centros de Gravidade (CG), pontos focais (pontos ótimos de aplicação da força), que correspondem aos núcleos de poder e movimento, coesão e direção de que tudo depende. É o entendimento da trindade que permite compreender que, ainda que a destruição das forças do inimigo seja usualmente um início promissor, e sempre tenham influência no desenrolar da campanha, seja possível identificar CG de seu esforço de guerra em outros pontos. Que “o combate é um embate de forças morais e físicas por meios destas últimas” [II-1: 127] não deve ser confundido com um aforismo: é uma descrição do que seja a natureza do combate na guerra. A questão é assestar o golpe sobre o CG que mais afete a coesão e a vontade do nosso inimigo, que atinja as forças morais, tanto quanto as físicas. Deve-se achar um único CG e aplicar aí força máxima. Assim, o CG pode estar na força principal, ou na força de um aliado mais poderoso, ou na Capital, ou, como no caso de movimentos guerrilheiros, em sua liderança. A questão é a de produzir um efeito favorável no equilíbrio de forças de tal ordem que ele não possa ser revertido. Daí, portanto, a prioridade para a grande batalha, e na exploração de seus resultados. [VI-27: 484-487; VIII-4: 595- 600; VII-5: 601-602; IV-9: 248-252; IV-10: 253-257; IV-11: 258-262; IV-12: 263-270]. O objetivo dos árabes era aniquilar Israel e retomar territórios perdidos (Sinai e Golan), enquanto os judeus visavam à sobrevivência do Estado Israelense.
2. Estratégia
“É o uso dos enfrentamentos para a busca dos objetivos da guerra”. A força aérea nunca se constituiu num ponto forte da URSS. A arma aérea, ao contrário à dos EUA e Inglaterra, nunca representou um significante componente militar e não tiveram qualquer espécie de experiência ativa de combate. Assim, as forças aéreas dos países árabes foram treinadas por pessoas com pouquíssima experiência nesta atividade. Porém, a estratégia militar soviética (e árabe) prioriza o uso da artilharia anti-aérea e de mísseis SAM. Por outro lado, a Força Aérea Israelense (FAI) seguiu as estratégias, doutrinas, experiências e tradições da Royal Air Force, que obtivera inúmeras vitórias em combates e avanços tecnológicos durante a segunda guerra. A FAI demonstrou capacidade de adaptação aos novos parâmetros do teatro operacional e reformulou sua doutrina, pois a utilização das novas tecnologias soviéticas deixou, no início do conflito, as aeronaves indefesas às anti-aéreas. A opção estratégica do Estado-Maior de Israel tinha sido em favor da prioridade pelas Colinas de Golan. Nessa área, não se dispunha de profundidade, como no Sinai (os centros populacionais e alvos estratégicos estavam próximos), e qualquer penetração local pelos sírios viria a ameaçar os centros populacionais israelenses do norte da Galiléia. Por isso, o inimigo deveria ser afastado dali o mais rapidamente possível, após o que seu Exército deveria ser destruído, assim eliminando a ameaça militar dirigida contra a fronteira norte do país. Somente então o poderio das forças militares de Israel poderia ser dirigido contra os egípcios. Assim, as estratégias dos escalões superiores puderam concretizar os objetivos ditados pela política (o principal era a sobrevivência do Estado de Israel).
3. Tática
Segundo a concepção teórica de Clausewitz (1984), a tática seria o uso da força no combate, isto é, a condução dos enfrentamentos. A tática empregada pelas forças israelenses consistia no pouco uso da artilharia na ação direta ao combate, pois estavam convictas de que suas aeronaves de combate seriam capazes de por si só apoiarem as investidas de suas tropas de superfície fato este que não se confirmou devido aos mísseis SAM utilizados pelos árabes na forma conhecida como ¨guarda-chuva.¨ Após as aeronaves da FAI serem equipadas com novas medidas de proteção e a adotar novas táticas, lograram uma redução nas perdas, passando a dedicar-se, novamente, ao apoio aéreo tático em favor das forças terrestres. Realmente, nos combates aéreos a FAI mostrou-se superior às forças aéreas do Egito e Síria, porém ficou evidente a necessidade de aeronaves menos valiosas e de médio alcance, com suporte de contra-medidas eletrônicas (CME), nas tarefas de apoio aéreo aproximado às forças terrestres, em virtude da elevada taxa de perdas ocasionadas pelos sistemas de defesa anti-aérea soviéticos.
4. Continuidade
Com propriedade, Proença (1999) lembra que:
A dinâmica das forças morais é crucial para que se possa compreender como elas são ainda a única forma de superar as dificuldades intrínsecas da ação na guerra: o perigo [I-4: 113-114], a fadiga (ou esforço físico) [I-5: 115-116], a incerteza [I-6: 117-118]; “tudo na guerra é muito simples, mas a coisa mais simples é difícil. (I-7: 119, grifos nossos).
Este ambiente é caracterizado ainda pelo que Clausewitz define como fricção (friction) ou desgaste: “a dificuldade perversa das coisas, dos acidentes, dos erros” [I-7: 119-121]; e essa soma produz um ambiente de fricção geral,. “A única coisa capaz de superar este impedimento, que embaraça a ação tanto das tropas quanto do seu comandante, é o conhecimento tácito e específico do próprio ato em si, a experiência de guerra,[...] de combate”. Novamente, Proença (1999) sustenta que:
O leigo, distante da dificuldade intrínseca da guerra, tanto quanto o combatente mergulhado na alternância entre rotina e urgência, pode perder de vista como o comandante permite ou dificulta que se encontre o rumo no ambiente da guerra, e como este indivíduo pode ser um fator preponderante. [I-3: 100-112]
Contudo, é a natureza do próprio fenômeno bélico – que contém a superioridade da defesa sobre o ataque, que permite a pausa na ação – que se encontra a preeminência intrínseca da política no fenômeno bélico. No Yom Kippur, presenciou-se a força moral israelense, desequilibrando o resultado do conflito. Os árabes obtiveram a vantagem inicial no ataque surpresa, em 06/out/1973, porém não utilizaram o princípio da exploração do êxito para impor uma ofensiva contínua à Israel, parando cerca de 22Km a leste do Canal de Suez. Com isso, infere-se que os árabes não souberam levar Israel ao desgaste contínuo, que induz à fricção geral.
5. Ataque
É preciso emprestar propósito ao combate, isto é, determinar o que o combate materializa. Só há duas possibilidades: o ataque e a defesa. O ataque é a forma de luta que tem o propósito positivo, isto é, que deseja alterar a situação existente: golpear. A essência do ataque é a velocidade, a produção do fato consumado. [VII-1: 523; VII-2: 524-25] A defesa é a forma de luta que tem o propósito negativo, isto é, manter as coisas como estão. O conceito defesa é: aparar o golpe. A essência da defesa, portanto, é a espera da oportunidade de aparar o golpe. Uma guerra ou um enfrentamento são defensivos se se espera a chegada, isto é, o avanço da força inimiga, seja através das fronteiras do território que pretendemos defender, seja diante de nossas forças, seja ao alcance de nossos armamentos. Em todos os casos, diante do inimigo, está-se livre para fazer o que se queira sem se perder as vantagens intrínsecas da defesa, isto é, as vantagens que advém da espera e da posição. Mas a defesa não é pura espera, pura absorção dos golpes do inimigo, puro estoicismo: “Mesmo numa posição defensiva esperando o assalto inimigo, nossas balas tomam a ofensiva.” [VI-1: 357] O que faz um enfrentamento ou uma guerra defensiva é seu propósito. Não há contradição alguma em que se faça fogo sobre o inimigo, ou se ataque uma posição inimiga num enfrentamento; ou que se travem enfrentamos ofensivos numa guerra defensiva. Ao contrário: esta atividade é essencial para que se possa preservar a situação, obstando e revertendo os resultados dos golpe do inimigo com golpes e contragolpes. “Assim, a forma defensiva da guerra não é simplesmente um escudo, mas sim um escudo constituído por golpes bem aplicados.” [VI-1: 357-358]. Egito e Síria lançaram seu ataque contra Israel em 06 de outubro de 1973. Os exércitos de Sadat rapidamente cruzaram o Canal de Suez. Era feriado de Yom Kippur, o dia mais santo do calendário judeu. Com a maioria dos cidadãos nas sinagogas, a rádio nacional fora do ar, o povo bem-humorado e relaxado, Israel foi pego de surpresa pelos ataques coordenados entre sírios e egípcios. Fontes da inteligência israelense haviam descartado a probabilidade de um ataque das forças árabes e o efetivo militar de Israel não estava completamente preparado para a defesa de duas frentes de batalha ao mesmo tempo.
def 6. Defesa
Um dos resultados mais importantes da Teoria da Guerra de Clausewitz é a demonstração de que “a defesa é a forma mais forte de luta”, e que isto deriva da realidade tática de que a defesa é a “forma mais forte de combate”. Esta demonstração embasa todo o restante da estrutura teórica de Clausewitz. Tudo se assenta pela constatação de que não existe uma real polaridade entre ataque e defesa; dito de outra forma, há mais diferença entre ataque e defesa do que apenas o seu propósito, positivo (ataque: buscar, conquistar, mudar a situação) ou negativo (defesa: preservar, conservar a situação). Isto não é imediatamente óbvio, porque a força no ataque pode escolher a hora e o local de seu ataque (surpresa), concentrando forças e preparando-se de diversas formas para dar conta das forças da defesa que ali se encontram. Mas isto tende a ocultar o fato de que é necessário ter estas vantagens para se possa ter expectativa de sucesso no ataque. O fato é que tudo que uma força pode usar no ataque pode ser usado também na defesa. Isto significa que as vantagens da posição e da espera se somam às forças da defesa, e que é porque é necessário superar essas vantagens que o ataque tem que agregar mais força – maior número, maior capacidade, mais elevada coesão e superioridade nas forças morais, a surpresa – para que um ataque seja sequer possível. A superioridade da defesa reside no fato de que existem recursos defensivos que não estão disponíveis para o ataque. Uma parte importante dos recursos combatentes da defesa, como a vantagem da espera, e o alívio do desgaste das forças pela fricção, ou da posição no terreno (no sentido corretamente amplo de alternativas posicionais em terra, mar, ar e fortificações). Estes recursos não estão disponíveis ao ataque; só contribuem para a defesa. A defesa assim é a forma intrinsecamente mais forte de combate, e isto se desdobra para fazê-la a forma mais forte de luta, e a forma mais forte de guerra. [I-1: 83-84] É essa superioridade da defesa sobre o ataque que explica porque a guerra não é uma sucessão frenética de ataques, dando conta da “pausa na ação”. É a superioridade da defesa que explica porque a maior parte das guerras consiste em momentos de espera, em que nenhum dos dois lados está atacando. Isto não seria lógico se ataque e defesa fossem distintos apenas em termos de seus propósitos: a menos de um grave erro de informação ou timidez, o tempo de espera que beneficiasse a um dos lados levaria a que o outro atacasse, antes que este benefício se fizesse presente. Mas como a defesa é mais forte que o ataque, entende-se que cada um dos lados pode ser forte o suficiente para defender-se, sem ser forte o suficiente para atacar. [I-1: 84] A pausa na ação que decorre da superioridade da defesa sobre o ataque tem duas conseqüências de primeira magnitude: (i) faz da guerra uma continuação da política; e (ii) permite que exista estratégia como distinta da tática.
O Egito pausou o ataque, após surpreender Israel e transpor o Suez, deixando clara a influência da política e da estratégia.
7. Polaridade
Por que não existe uma verdadeira polaridade entre ataque e defesa? Segundo Clausewitz, porque são objetos de naturezas distintas e de forças desproporcionais, aplicando-se a polaridade só às relações entre eles. Para Aron, autor neoclausewitziano na concepção de Rapoport:
É legítimo evocar a dialética de defesa e do ataque, do físico e do moral, dos fins e dos meios, mas não confundir esta dialética com o princípio da polaridade[...] estas três dialética[...] apresentam um traço comum, incompatível com a polaridade, não há ataque sem defesa, força física sem componente moral, fim militar que se torne meio político, portanto, violência que não deva se submenter à vontade inteligente.
O autor discute a relação entre guerra (violência) e política (vontade inteligente), arguindo a impertinência desta relação à polaridade clausewitziana. Na página 370, ele continua ensinando que: “Clausewitz emprega o termo polaridade, na narração da campanha da Rússia, para relatar a vontade comum de Napoleão e de Kutuzov de não travar uma segunda batalha depois da de Borodino”. E Aron(1986) segue dizendo que: “a polaridade aplica-se aos fins visados pelos duelistas, fins por definição contraditórios ou incompatíveis, não aos meios”. Ademais, Aron lembra:
“O texto do parágrafo 15 (I,1) não deixa dúvida sobre o sentido do conceito de polaridade, Trata-se mesmo do jogo com soma nula, do caso em que o ganho de um é igual à perda do outro. Em uma batalha, cada um dos dois partidos quer vencer; existe uma polaridade verdadeira, pois a vitória de um aniquila a do outro”.
Sobre o uso do termo polaridade, em outro texto de Clausewitz, Aron (1986) diz: “ele trata da oposição entre emprego sucessivo e o emprego simultâneo das forças[...] o primeiro princípio vale em tática, o segundo em estratégia[...] essas duas maneiras de emprego são opostas[...] cada uma pode ser dita como um pólo”. Segundo Aron:
Clausewitz dá a possibilidade de aplicar a polaridade a muitas oposições que ele analisa[...] à oposição entre grandeza do sucesso e riscos corridos.[...] o capítulo sobre polaridade teria se assentado nos diversos tipos de oposições[...] nas especificidades da dialética clausewitziana. O conceito de polaridade[...] não podia se tornar fundamental da dialética clausewitziana. Se quisermos encontrar tal conceito, é o da oposição.
c) Estruturas de Segurança e Defesa
1) Árabes (Egito e Síria): No quadro de segurança externa, houve o apoio da URSS, que tinha interesse político e estratégico na região, aliando-se ao Egito e à Síria. Como medidas de defesa, os exércitos egípcio e sírio receberam da URSS mísseis terra-terra com capacidade de atingir alvos israelenses. O Egito recebeu guarnições de mísseis Scud e tinham 150 baterias de mísseis SAM-2 e 3. A Síria ganhou mísseis Frog, que tinham um alcance de 88km. Ademais, possuía um sistema de cobertura anti-aérea de mísseis terra-ar, arma soviética com nova tecnologia, para neutralizar a aviação israelense (fundamental às manobras). Após as perdas ocorridas na Guerra dos Seis Dias, os egípcios construíram abrigos de concreto reforçados para a guarda de suas aeronaves e fortaleceram os meios de defesa anti-aérea com novos armamentos soviéticos. As forças egípcias utilizaram de forma permanente e eficiente a falsa propaganda, induzindo Israel a adquirir o sentimento (segurança) e a acreditar que suas tropas estavam em situação crítica, despreparadas e sucateadas. Para apoiar suas manobras, os egípcios se utilizaram de uma verdadeira barreira anti-aérea, empregando novas tecnologias de origem soviética, compondo meios de interferência eletrônica, canhões de saturação e mísseis de curto e médio alcance, a baixa e média altura, que, por saturação do espaço aéreo ocasionaram elevadas perdas às aeronaves israelenses e ótima proteção às tropas egípcias. Para transpor o Canal do Suez, os egípcios utilizaram jatos de água de alta pressão contra as defesas da linha Bar-Lev e a infiltração de comandos para neutralizar as tubulações dos lancha-chamas israelenses. Por sua vez, os sírios se puseram em constante treinamento, sobretudo na área a leste de Damasco, a fim de possibilitar o pronto-emprego. A Força Aérea Síria não necessitou modificar as bases depois da Guerra dos Seis Dias, como acontecera com o Egito. O sistema defensivo sírio havia sido concebido de uma tal maneira que podia evoluir para um ataque sem grandes deslocamentos de tropas. Quanto à segurança, as tropas árabes contavam com pouca conscientização, possibilitando o vazamento de informações sobre forças, seu equipamento e suas manobras, ao contrário das tropas israelenses. 2) Israel: Israel adquiriu uma opção estratégica com a profundidade alcançada pela Guerra dos Seis dias. A partir desse conflito, todos seus centros populacionais guardavam uma considerável distância das forças egípcias, além disso havia uma área de 240 km de deserto, que o separava do Canal de Suez. Era a defesa natural. Na região do Sinai, os israelenses construíram postos de observação para alerta antecipado e com a finalidade de fornecer informação. Esse sistema de defesa fortificado, ao longo do Canal de Suez, era conhecido como Linha Bar-Lev. Neste complexo, cada posto controlava de 800 a 1700 km e era coberto por postos de observação e patrulhas. Nos pontos mais críticos, havia o reforço de carros de combate e à retaguarda encontravam-se unidades de blindados. Havia uma grande infra-estrutura de estradas, sistemas hidráulicos e de comunicações. A sensação de segurança israelense estava baseada na confiança de um alarme antecipado de ataque, dado pelo Serviço de Informações Israelense (Mossad), no poder e na capacidade do exército e, principalmente, da FAI. Convém salientar que era dada grande importância à força aérea, pois possibilitava às reservas de guerra uma rápida mobilização e deslocamento para as linhas de frente, além de proteger os céus. As tropas engajadas no combate possuíam elevada consciência de segurança, conseguida por meio da disciplina e educação de seus integrantes.
d) Mobilização
Israel compensou disparidades populacionais entre israelenses e árabes com capacidade de mobilização, prevista de ocorrer em 72 horas. Pressupunha-se que a eficiência das FFAA, em especial da FAI, equilibraria a inferioridade numérica. Da parte israelense podemos destacar os seguintes exemplos de ações de Mobilização e Logística Nacional: · as Forças de Defesa de Israel, no estado de mobilização total, passaram de 75.000 pessoas para 350.000 soldados; · esses homens eram equipados com excepcional variedade de armamento” (Guerra na Paz, 1984. pág 857); · Segundo o relato do jornalista Nicholas Jacobson, o Exército israelense se pôs em marcha com caminhões improvisados abarrotados com granadas, caminhões de mudança carregados de rações e latas de gasolina. Oficiais e outros militares graduados seguiam pra a guerra com seus carros particulares; · a FAI estava mais fortalecida [...], o fornecimento de modernos aviões militares americanos – em especial o McDonnel Douglas F-4E Phantom e o Douglas A-4 Skyhawk – permitiu-se manter a vantagem qualitativa do equipamento da FAI sobre as Esquadrilhas árabes. Os Estados Unidos se mostrariam um aliado firme dos israelenses do que tinha sido a França em 1967 – e a FAI contou com o envio constante de peças e aeronaves de reposição em 1973; · a pequena mas crescente indústria aeronáutica israelense também deu grande contribuição à capacidade de combate” (Guerra na Paz, 1984. pág 876); · ainda referente ao preparo, nota-se a modernização dos meios aéreos, tanto por parte dos árabes (MIG 21F mais poderosos) como dos israelenses (Phantom F-4E), além do reforço em suas quantidades; · “a assistência técnica e logística dos EUA foi crucial para neutralizar o sistema de defesa aérea do inimigo” (Guerra na Paz, 1984. pág 879); · Os EUA também abasteceram Israel com vastas quantidades de equipamento militar. Em 13 de outubro os israelenses declararam que a nação só dispunham de material bélico para mais quatro dias de guerra. Golda Meir apelou para os EUA, pedindo 75 aviões (entre os quais 15 Phantom), tanques, artilharia móvel e mísseis. Itens de alta prioridade, como partículas de metal para despistar radares e bombas já haviam sido levadas para Israel por via aérea em onze Boeing 747 da El Al, desde 9 de outubro, além de munição antitanque e foguetes Sparrow; · A partir de 13/out, os EUA ampliaram o fornecimento. Em 566 viagens de ida e volta de 22.000 Km, os americanos enviaram 22.345 toneladas de suprimentos em aviões C-5 e C-141, com capacidade para 100 toneladas, suplementados por mais 5.500 toneladas transportadas por aviões da El Al. Da parte árabe podemos destacar os seguintes exemplos de mobilização: - refortalecimento de suas Forças Aéreas, com o fornecimento de grande quantidade de aviões mais modernos. O poder de fogo da Força Aérea Síria cresceu de 142 aviões de combate (meados de 1967) para 265 em outubro de 1973. A Força Aérea Egípcia teve aumento menos significativo (de 450 para 480 aviões de combate), mas grande número de MIG 21F deu lugar a versões mais poderosas e mais bem armadas desse mesmo modelo; - “a União Soviética não apenas forneceu equipamentos às forças árabes como também lhes enviou técnicos e conselheiros de combate” (Guerra na Paz, 1984. pág 877); “Em 9/out/1973, oitenta aviões militares de transporte soviéticos, entre os quais o Antonov AN-12 e AN-22, de grande raio de ação, e mais vinte aviões comerciais de carga da Aeroflot estabeleceram vôos de ida e volta de bases soviéticas no Cáucaso, na Ucrânia e no sul da Rússia, para a Síria e o Egito, aterrissando pero de Palmyra, Aleppo e Cairo. Os suprimentos militares que transportavam incluíam foguetes Frog, mísseis SS-1 Scud, SA-3 Goa, SA-6 Gainful e outros menores SA-7 Grail de lançamento manual. A URSS também enviou equipamentos mais pesados por via marítima. Na segunda semana de guerra, chegaram tanques T-54, T-55 e T-62 e caças MIG 21 aos portos de Alexandria, Tartus e Lakatia. No fim da guerra, a Síria tinha mais tanques que a Grã-Bretanha e a França juntas. Os dados acima listados, relativos à Mobilização e à Logística demonstram conceitos da Doutrina Militar Brasileira, nos seguintes pontos: · Quanto ao preparo da Mobilização: · a atitude de Israel é bastante coerente com os preceitos militares brasileiros, pois aquela nação permanecia em constante “alerta” em relação aos vizinhos, tendo em vista o estado de tensão desde a Guerra dos Seis Dias. Uma derrota de Israel implicaria na destruição de todo um povo, portanto o planejamento da Mobilização era conduzido em coerência com a conjuntura e em face dos problemas de segurança. · No trecho destacado, em que os combatentes de Israel “eram equipados com excepcional variedade de armamento”, observa-se uma contradição com os preceitos da Mobilização nas Expressões do Poder Nacional, neste caso específico com a Expressão Econômica e Militar, pois uma das medidas consideradas para a acelerada e eficaz adaptação ao atendimento da emergência (expressão econômica) é o “incremento à produção, padronização e nacionalização em geral” (ESG. Rio de Janeiro, 2005). · Quanto à execução da Mobilização: · as atividades de execução podem causar algum transtorno à vida nacional. A maior ou menor facilidade que tem a Nação de passar de uma situação normal para uma situação de emergência pode ser medida pela Capacidade de Mobilização. Na guerra em tela, esta capacidade de Israel foi colocada à prova, obtendo desempenho extremamente satisfatório. Como exemplo, citado no texto acima, foram utilizados recursos os mais variados para o transporte de suprimentos e combatentes, para a linha de frente (caminhões de mudança, carros particulares, etc.). · durante a guerra, conforme ressaltado, a indústria aeronáutica de Israel, apesar de pequena, exerceu papel importante na capacidade de combate. Destaca-se, portanto, a aplicação do conceito de Mobilização Industrial, pois foram implementadas ações voltadas para o foco da guerra em si, produzindo itens que supriram a Força Aérea Israelense. · Quanto à Logística: · conforme citado em textos anteriores, o treinamento de recursos humanos, tanto por parte dos árabes como dos israelenses, promovido pela URSS (Egito e Síria) e EUA (Israel) respectivamente, foi preponderante na execução da guerra; · o apoio proporcionado pelas superpotências no transporte de suprimento é inegável, utilizando para tal os modais aéreo e marítimo, de acordo com trechos acima destacados; e · a logística dos EUA foi crucial para neutralizar o sistema de defesa aérea dos árabes, fornecendo aeronaves e treinamento aos israelenses. Os beligerantes realizaram ações na fase de desmobilização nacional: 1. Apoio médico aos combatentes; 2. Apoio às famílias dos combatentes mortos; 3. Devolução dos prisioneiros de guerra; 4. Retorno das atividades econômicas; e 5. Retirada das tropas em respeito às resoluções da ONU.
e) Inteligência e Comando e Controle E.1) Inteligência
O Serviço de Informações Militares (SIM) apresentava a Estimativa Nacional em Israel, pois era o único órgão de informações dotado dos indispensáveis recursos de pesquisa e avaliação. O Serviço tomou vulto em atribuições, abafando esforços da equipe de pesquisas do Ministério do Exterior e do MOSSAD no preparo de avaliações próprias. Formou uma equipe de especialistas e ganhou a reputação mundial como serviço mais eficiente sobre assuntos do Oriente Médio. Prestígio merecidamente conquistado, pois o Serviço provou compreender melhor os fatos na região. Em Israel, não havia outro organismo superior ocupado no processo de tomada de decisões. No Gabinete e no Parlamento, nada existia com capacidade para analisar as avaliações dos militares. Portanto, o SIM se constituía num órgão central e vital às tomadas de decisões, pois cabia ao Gabinete a responsabilidade final em avaliar as intenções dos governos estrangeiros. Quando Ben-Gurion assumiu como Primeiro-Ministro de Israel, os militares não compareciam fardados nas reuniões do Gabinete e da Comissão de Assuntos Estratégicos e de Segurança do Knesset. Ben-Gurion apresentava o panorama total da defesa, inclusive das Informações. Apesar de cuidadoso no que dizia perante esses órgãos, ele pensava não necessitar de parceiros. Quando Moshe Dayan assumiu como Ministro da Defesa, tornou prática habitual comparecer perante aqueles órgãos acompanhado pelo chefe do Estado-Maior e pelo diretor do SIM, o que eliminava a linha divisória entre as responsabilidades militares e ministeriais. Assim, esses dois oficiais compareciam à mesa do Gabinete com a mesma freqüência dos próprios ministros. A hierarquia do diretor de Informações, o prestígio de Dayan e a inexistência de outro elemento para criticar as avaliações do SIM tornaram inevitável a aceitação de estimativas. Comparando-se o pensamento Estratégico de Política Nacional da ESG com a estrutura israelense, quanto à inteligência estratégica e às relações entre produtor e usuário da atividade de Inteligência, temos: · a estrutura israelense, alinha-se à Doutrina Militar Brasileira quanto à Inteligência Estratégica, procurando coexistir a necessidade de ampliar o nível de bem-estar das sociedades e a dificuldade de gerir e multiplicar recursos, e lastrear ato decisório em subsídios oportunos, amplos e seguros. · A única diferença da visão da ESG consite que o SIM Israelense era o produtor e usuário da Informação, porquanto não existiam organismos superiores (Ministérios, Gabinetes, ou Parlamento) que definissem por meio de avaliações próprias os rumos a serem tomados. Da parte Árabe, podemos visualizar a Contra-Inteligência como principal atividade, em consonância com a Doutrina Militar Brasileira. A ESG enfatiza a salvaguarda dos conhecimentos e/ou dados sigilosos oriundos do Sistema de Inteligência além dos dados sigilosos gerados por outras entidades nacionais. Uma operação de desinformação é atividade incerta, porém as chances de se obter sucesso aumentam quando aplicados dados princípios e técnicas próprias. O ataque egípcio, sob a estória-cobertura de presumível "exercício militar", constituiu o ardil mais óbvio e bem-sucedido do plano árabe de guerra. Os principais órgãos de inteligência israelenses atribuíram a esse presumível exercício a maior parte dos indícios de ofensiva iminente nas linhas egípcias, antes de 6/out. Exercícios reais haviam sido repetidos em abril e maio de 1973, bem como no ano anterior, circunstância que estimulou a adequada desatenção israelense em outubro. A escolha dos dias santificados de YOM KIPPUR e RAMADAN, como data oportuna ao início das hostilidades, proporcionou a cobertura adicional. Durante os seis meses anteriores à guerra, houve uma centralização dos planos estratégicos de dissimulação no Ministério da Guerra egípcio. Os egípcios basearam os trabalhos de desinformação em numerosos estudos que haviam procedido sobre o pensamento e a doutrina israelenses. Ademais, valeram-se da excessiva autoconfiança judia, sua fé na sempre crescente defasagem cultural e tecnológica entre Israel e os países árabes e convicção na incapacidade da liderança árabe de tomar a decisão de atacar, sem mencionar a falta de unidade do mundo árabe. Os árabes fizeram todo o possível para acentuar, aos olhos dos israelenses, a veracidade dessas convicções. Desde 1967, a mídia internacional fazia referência a qualquer estremecimento, real ou fictício, nas relações egípcio-soviéticas. As semanas que antecederam o conflito não foram exceção. Mesmo em 6/out/1973, os relatórios da inteligência israelense registraram essa "animosidade" como sendo a principal causa pela evacuação dos dependentes dos assessores soviéticos da Síria e do Egito. A retórica política de Anwar Sadat, imediatamente antes do ataque, foi ambígua, mas o seu pronunciamento de 2 de setembro, perante a conferência dos Países Não Alinhados, advogou uma solução pacífica para a crise no Oriente Médio. Observa-se o contraste entre tal postura e a maciça ofensiva desfechada pelos árabes quatro dias mais tarde. Outro aspecto interessante das atividades árabes próximo de 6/out foi o seqüestro de três judeus soviéticos na Áustria, em 28 de setembro de 1973. O consentimento austríaco em fechar um centro de triagem de imigrantes judeus em troca dos reféns desencadeou uma torrente de cobertura jornalística em todo o mundo. Então, Golda Meir viajou para Áustria, onde ficou retida em negociações até 4 de outubro, dois dias antes de ocorrer o ataque árabe. O plano de desinformação foi bem concebido pelos egípcios e elaborado por especialistas soviéticos, para ludibriar, não só os contendores israelenses, mas também os norte-americanos. Na prática, a operação desinformou aleatoriamente, inclusive as próprias FFAA egípcias. Em síntese, durante os preparativos para o ataque, havia numerosos indicadores que poderiam ter dado margem a maiores preocupações por parte dos israelenses, mas estavam mascarados, talvez em dobro, por outros que indicavam não haver motivos para alarme. As rotinas diárias no lado egípcio continuavam inalteradas. Os soldados pescavam e vagavam sem capacetes, no Suez, como se nada de diferente estivesse ocorrendo. Em muitos casos, o material produzido pela inteligência israelense descia a detalhes dos acontecimentos prestes a acontecer. Contudo, como fora previsto pelos egípcios, quando os fatos realmente aconteceram, foram ignorados. No campo da Inteligência Operacional, os egípcios alcançaram grande progresso. Após a Guerra dos Seis Dias, a URSS reorganizara o Sistema de Informações egípcio e o dotara de equipamentos modernos e sofisticados para todas as espécies de guerra eletrônica. A radiointerceptação, a vigilância eletrônica e a radiogoniometria foram introduzidas, alcançando bom padrão operacional. Além disso, infiltraram agentes no interior de Israel. Os egípcios valeram-se, ainda, da vigilância desenvolvida pelos soviéticos sobre Israel por meio de seus navios e satélites de Informações. Houve falhas do Serviço de Inteligência Israelense, segundo Sun Tzu. A “COMISSÃO AGRANAT” apurou responsabilidades pelos erros cometidos na guerra do Yom Kippur: Equívocos de avaliação do Agaf ha-Modi'in (a Agência de Inteligência - AMAN), concernentes aos seguintes pontos: - o pressuposto básico sobre a pouca disposição árabe em realizar qualquer ação bélica em futuro próximo; - o pressuposto básico de que o Egito não partiria para a guerra antes de 1975-1976, tendo assegurado, desde o início do conflito, capacidade para um ataque aéreo em profundidade contra israel, com o propósito de neutralizar a FAI; - a não atualização de seu plano de inteligência, que determinou a falta de conhecimentos detalhados sobre: I) novos armamentos recebidos pelo Egito, no período de 1967 a 1973; II) a não avaliação correta do novo perfil do militar egípcio, que passou a ser recrutado entre universitários e outros profissionais de melhor nível;
III) a não consideração dos aperfeiçoamentos realizados pelos egípcios, na área de Inteligência de Sinais (SIGINT), fator de sucesso, pois a segurança das comunicações israelenses haviam sido relaxada; e IV) a não elaboração de cenários onde seria considerado como fato significativo, o fortalecimento da influência externa no Oriente Médio após a “Guerra dos Seis Dias”, especialmente no Egito.
e.1) Comando e Controle Citando Herzog (1977): “[...] estar a caminho da frente Síria o auxílio árabe, sob a forma de reforços – [...] do Iraque, da Arábia Saudita e do Kuwait. [...] para o Estado-Maior de Israel, que o rei Hussein da Jordânia, até então postado sobre a linha de não-intervenção, viria a ser influenciado em suas futuras decisões pela sorte do Exército Sírio.[...]chegavam informes sobre o movimento de forças iraquianas em direção à Síria, o fator tempo tornava-se cada vez mais importante”.
Tanto comando quanto controle não funcionaram bem entre os árabes. Não houve comando integrado entre os árabes, pois o Egito errou ao não pressionar Israel pelo sul, fato que aliviaria o flanco sírio no norte. Isso permitiu que Israel, como ocorrera na Guerra dos Seis Dias, cuidasse de um inimigo de cada vez. O Governo sírio lançou sucessivos pedidos de socorro. O presidente Assad, que poucos dias antes, quando parecia que Golan estava por cair frente ao ataque sírio, procurava os bons ofícios dos soviéticos junto a Sadat para que concordasse com um cessar-fogo, percebia a gravidade do seu erro em não ter pressionado pela trégua desde o começo. Enquanto a Síria lutava nas vias de acesso à sua capital, o aliado exército egípcio achava-se parado na margem oriental do Canal, após consolidar a vantagem obtida, temeroso de pôr em risco o êxito alcançado, caso avançasse. Assad pediu que o Egito pressionasse as forças israelenses e assim aliviasse a frente síria . As três divisões das IDF - (forças terrestres, aéreas e navais) funcionavam sob comando unificado, à testa do qual se encontra o chefe do estado-maior, com a patente de comandante geral, responsável diante do Ministro da Defesa. O Chefe do Estado-Maior era nomeado pelo governo, por recomendação do Primeiro-Ministro ou do Ministro da Defesa, para um período de três anos, que normalmente era prolongado por mais um ano. Para assegurar seu sucesso, a doutrina das IDF a nível estratégico é defensiva, enquanto suas táticas são ofensivas. Devido à falta de profundidade territorial do país, as IDF devem tomar a iniciativa quando se considera necessário e, se atacadas, transferir rapidamente o campo de batalha para o território inimigo. Um exemplo de falta de comando sírio e bom comando israelense se deu num combate entre a companhia do Cap Meir e uma coluna síria que fora observada indo em direção norte às duas horas da manhã pela estrada Rafid-Kuneitra. Após 45 minutos de luta, Meir contou 20 carros sírios abandonados. Outro excelente exemplo de comando e controle israelense foi: às 08h30min horas da manhã de segunda-feira foi iniciado o contra-ataque israelense. Na área de El Al, a 19ª Brigada esbarrou contra forte oposição. O Gen Musa Peled percebeu que o terreno plano e desimpedido permitia a utilização de mais forças e lançou no combate a 20a Brigada. Quando a 4a Brigada, que também combatia, atingiu o seu objetivo destruindo mais de 15 carros inimigos e atingindo uma estrada lateral. Ordenou que fosse enviado um batalhão contra o flanco direito do inimigo, porém seu comandante cometeu um erro de orientação e a unidade deslocou-se na direção errada. Quando Peled percebeu o que acontecera, mandou que as 19a e 20a Brigadas atacassem pela frente, estas irromperam pela força inimiga que foi destroçada.
f) Centros de Gravidade e Princípios de Guerra F.1) Centros de Gravidade Conforme Echevarria, o correto conceito de CG de Clausewitz é “um 'ponto focal', não uma força ou uma fragilidade, ou, mesmo, uma fonte de força”. Citando Echevarria (2004), pode-se induzir do conceito de CG que: Como afirma Clausewitz, o grau de unidade formado por forças militares e os aspectos geográficos em que elas têm de combater podem criar mais de um CG. Ele defende que se substituam múltiplos CG por um, quando possível. Todavia, reconhece a possibilidade de que talvez não exista um CG específico. Os centros de gravidade (CG) são o fulcro da teoria de Warden III, o mais conhecido teórico moderno do poder aéreo, que nos ensina e alerta: A idéia de centro de gravidade é um conceito simples mas de difícil aplicação porque parece que existe mais de um centro a cada momento e que cada centro terá um efeito de algum tipo sobre os outros. […] os centros de gravidade podem, em alguns casos, só se relacionar indiretamente com a capacidade do inimigo de conduzir o |