* Gen Bda (R1) Luiz Eduardo Rocha Paiva
“Entre
outros males, estar desarmado significa ser desprezível”. (“O Príncipe”
– Maquiavel).
1.
INTRODUÇÃO.
O
presente texto tem por finalidade apresentar uma real ameaça à soberania
nacional e à nossa integridade territorial, caso o País não reverta suas
vulnerabilidades na Amazônia Brasileira.
A
documentação que trata da defesa nacional considera como sendo difusas as ameaças
que podem afetar o Brasil, o que exige o preparo de nossas Forças Armadas (FA)
calcado em capacidades para atuar em diferentes cenários de conflitos.
O
preparo com base em capacidades para enfrentar desafios distintos faz sentido.
Porém, há que se entender a diferença entre desafios (ou problemas) que afetam a segurança nacional, mas que o País pode neutralizar com recursos próprios,
e ameaças que coloquem em risco a integridade territorial e a nossa soberania,
quando o Estado não dispõe de meios suficientes para dissuadir ou derrotar
o(s) oponente(s).
As
chamadas “novas ameaças”, dentre elas, os delitos transnacionais, o crime
organizado, o terrorismo internacional e a questão ambiental estão no universo
dos desafios/problemas, mais do que, propriamente, no das ameaças. O Estado
brasileiro tem recursos para neutralizar estes antagonismos, antes que se tornem
ameaças, se houver vontade política.
Por
outro lado, a cobiça internacional pelas riquezas da Amazônia Brasileira
caracteriza uma ameaça concreta à soberania e à integridade territorial, uma
vez que envolve interesses que tendem a ser vitais, no futuro, para as grandes
potências, que já demonstraram como atuam nesses casos, inclusive em conflitos
contemporâneos.
Se
a Nação não for alertada para isto, claramente, como não vem sendo,
continuará a criar, ela própria, as condições objetivas para a ingerência internacional,
no sentido de impor uma soberania compartilhada na região. Não se culpe, exclusivamente,
os sucessivos governos a partir de 1990, pois existem
várias instituições e segmentos da sociedade que conhecem o problema e têm
se omitido ou apenas atuado de maneira débil para mobilizar a Nação em face
de um tema que diz respeito à própria dignidade nacional.
A sociedade precisa conhecer o risco que envolve não ocupar, não
povoar, não desenvolver, não integrar, não defender e, também, não
preservar a Amazônia, pois só assim passará a exigir medidas preventivas,
contrapondo-se a diversos atores adversos. Precisa saber, principalmente, que a
Amazônia não é problema, mas sim solução.
Um dos motivos principais da falta de recursos para as FA é a crença,
equivocada, dos brasileiros em que o País não tem ameaças. Isto ocorre por
causa de nossa incapacidade de antevê-las, por falta de visão estratégica –
visão de futuro. A Política de Defesa Nacional contribui para este quadro,
pois deveria caracterizar uma ameaça prioritária, dentre as chamadas ameaças
difusas.
Vamos mostrar, neste texto que ela é real.
2.
VULNERABILIDADE.
A
Amazônia Brasileira é um espaço rico em recursos e vazio em população, agências
e órgãos do Estado.
É
comum Organizações Não Governamentais (ONG) ocuparem os espaços que cabem ao
Estado Brasileiro, sendo que muitas dessas organizações representam,
veladamente, interesses internacionais públicos ou privados. Várias ONG não têm
nenhum compromisso com o Brasil e atuam política e estrategicamente no sentido
de que as populações indígenas, no futuro, constituam nações autônomas.
A
região em pauta está inserida, por direito, em nossas fronteiras, mas ainda não
foi efetivamente ocupada e integrada, de fato, à Nação. A vulnerabilidade
fica, então, caracterizada: pelo vazio de poder fruto da ausência do Estado,
substituído por ONG e outros entes, muitas vezes, representando interesses
estrangeiros; pelo baixo grau de integração física da região ao País; pela
imensa riqueza em recursos estratégicos - futuramente escassos no mundo – e
pela cobiça internacional perfeitamente conhecida.
Historicamente,
um quadro como este já seria suficiente para caracterizar uma ameaça. Ela
parece tão clara, que é de se preocupar não haver, praticamente, nenhuma
manifestação contundente de nossas lideranças a respeito.
3.
COBIÇA INTERNACIONAL.
Não se trata de algo novo, mas, nas últimas décadas, vem
se acentuando o interesse internacional sobre a região e ele tende a aumentar,
até mesmo como conseqüência do fenômeno da globalização e da questão
ambiental.
A partir dos anos 90, foram várias as manifestações de
estadistas, chefes de governo, autoridades, organismos e organizações
internacionais contestando a soberania dos países condôminos da Amazônia
sobre a mencionada região. Dentre as personalidades mais conhecidas
destacam-se: Mitterrand, Henry Kissinger, Margareth Thatcher, Gorbatchov e Al
Gore.
Em 1992, o então Primeiro Ministro da Inglaterra – John Major –
declarou: “as campanhas ecologistas internacionais sobre a região amazônica
estão deixando a fase propagandística para dar início a uma fase operativa,
que pode, definitivamente, ensejar intervenções militares diretas sobre a região”.
Naquele ano, foi realizada a conferência internacional sobre o meio ambiente no
Rio de Janeiro (ECO/92), que coincidiu com a criação da Reserva Ianomâmi,
desencadeando um processo de estabelecimento de imensas Reservas Indígenas.
Hoje, elas ocupam 12% do território nacional. São conhecidas as fortes pressões
do Governo dos EUA para a criação da Reserva Ianomâmi, inclusive ameaçando
fazer uma campanha para boicotar a ECO/92.
Em 1998, Patrick Hugles, Chefe do órgão central de informações das FA
dos EUA, em palestra realizada no Instituto de Tecnologia de Massachusets disse:
“caso o Brasil resolva fazer um uso da Amazônia que ponha em risco o meio
ambiente nos EUA, temos de estar prontos para interromper esse processo
imediatamente”.
Em 2005, Pascal Lamy, Diretor-geral da Organização Mundial do Comércio,
manifestou que: “a Amazônia e as outras florestas tropicais do planeta
deveriam ser consideradas bens públicos mundiais e submetidas à gestão
coletiva, ou seja, gestão da comunidade internacional”. O que preocupa é
ouvir de um secretário do alto escalão do MRE, proferindo palestra na Escola
de Comando e Estado-Maior do Exército, após este comentário do Sr.Pascal
Lamy, que o segmento
diplomático brasileiro
“tinha ficado
satisfeito com
a eleição
do Sr. Lamy para o cargo na
OMC, uma vez que se tratava de um amigo do Brasil”.
Em 22/09/2005, o Senador Mozarildo Cavalcante (RR), em discurso no Senado
sobre a Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, relatou que o Presidente da República
mencionara, em audiência com autoridades de Roraima, ter sofrido pressões de
ONG européias, da OEA e da USP para a demarcação da Reserva em terras contínuas.
Verifica-se, coincidência ou não, que sempre que o Brasil tem algum tema
importante em negociação com o primeiro mundo, particularmente que implique
viagem presidencial ao exterior, após o regresso, é tomada alguma decisão que
atende a interesses estrangeiros na Amazônia.
Existem grupos, empresas, laboratórios, indústrias e ONG de
“fachada”, que estão presentes, ou desejam estar, pesquisando e explorando
a região sem o controle do Estado, e transferindo recursos e conhecimentos,
para o exterior, em detrimento ao Brasil.
O enorme potencial em riquezas e sua escassez a médio ou longo prazo são
razões suficientes para as pressões internacionais, no sentido de impedir que
o Brasil explore seus recursos, mantendo-os intactos para o uso de outros atores
no futuro.
Fica, assim, caracterizada a cobiça internacional, particularmente das
maiores potências, por uma região tão rica e vulnerável de nosso País.
4.
TEMAS DA AGENDA INTERNACIONAL.
Existem alguns temas da agenda mundial que estão diretamente
relacionados com o problema em pauta, aconselhando uma atuação pró-ativa, enérgica
e permanente do Estado, que precisa demonstrar capacidade de controlar a região.
Assim, pode-se evitar que os temas sejam usados como pretexto para respaldar
pressões internacionais, que recebem, muitas vezes, o apoio de pessoas e
organizações do País, agindo por convicção ou fazendo o jogo de interesses
estrangeiros.
Destacam-se, a seguir, três temas que merecem atenção especial do
brasileiro.
a.
Questão Ambiental.
É necessário um controle eficaz da ocupação, exploração e do
desenvolvimento da região, no sentido de coibir crimes ecológicos e preservar,
com inteligência e sem radicalismo inconseqüente,
o meio
ambiente. Isto
é fundamental
para evitar
campanhas contra
o
desenvolvimento sustentável da região, condição
importante para sua integração ao restante do País e para neutralizar a
concretização da ameaça em questão. Infelizmente, os sucessivos governos têm
demonstrado pouca eficácia ou, talvez, pouco interesse em conduzir o processo
de ocupação, desenvolvimento e preservação da Amazônia.
Hoje, com o propalado aquecimento global, a questão do desmatamento na
Amazônia vem ocupando largo espaço na mídia. Há uma tendência a desviar o
foco do debate dos grandes poluidores, superdimensionando e enfatizando o
problema das queimadas, de modo a preparar o terreno para futuras pressões com
o objetivo de justificar a ingerência internacional.
Na reunião da ONU sobre mudanças climáticas em Bali – Indonésia
(dezembro de 2007), o nosso governo flexibilizou sua posição sobre os
“mecanismos de redução de emissões de desmatamento e degradação”.
Acordos que impliquem receber indenização dos países ricos para conservar a
floresta e diminuir a emissão de CO2 (os chamados créditos de carbono) ou
receber recursos de um fundo internacional de combate ao desmatamento, poderão
comprometer a nossa soberania na administração da Amazônia Brasileira.
Afinal, quem paga se acha no direito de exigir. Falta é vontade política para
dar a devida prioridade à integração, ao desenvolvimento e controle da ocupação
da região.
b.
Delitos Transnacionais e Segurança Pública.
É preciso exercer o controle eficaz e permanente da faixa de fronteira e
do espaço aéreo, coibir a violência rural, neutralizar o poder do crime
organizado e de outros bandos armados que atuam ao arrepio da lei, infiltrados
em grupos de interesses opostos que se enfrentam em algumas áreas da região.
c.
A Questão Indígena.
Há que
se retomar a
antiga política
de integração
do indígena brasileiro à
Nação e à
sociedade, revertendo a atual orientação segregacionista,
que atende a interesses estrangeiros e
reforça a ameaça, pois prepara o caminho para a constituição
de “nações indígenas”, como desejam muitas ONG, países, organizações e
organismos internacionais. A integração, o estudo e a adoção de novos hábitos
não impedem que sejam preservados o idioma, o folclore e as tradições das
diversas tribos indígenas do Brasil.
Como desejar que um ser
humano, que vê
uma televisão, um avião, um computador e outros meios que
valorizam a vida e contribuem para o bem-estar e a saúde, seja segregado e
fique estagnado na “idade da pedra”?
Os descendentes de japoneses, europeus e africanos, perfeitamente
integrados à sociedade, conseguem manter seus laços culturais sem deixar de
desfrutar das benesses do progresso.
A partir de 1992, houve um incremento importante na criação de Terras
Indígenas (TI) e Unidades de Conservação (UC). Hoje, estas áreas
correspondem à extensão territorial da
França e da Alemanha reunidas, perfazendo mais de 12% do território
nacional. A população indígena está em torno de 400 mil brasileiros índios.
Os 85% restantes do nosso território ficam para os outros 180 milhões de brasileiros.
Se analisarmos o Estado de Roraima, destaca-se que mais de 60% de suas
terras são TI. Tal fato poderá inviabilizar seu desenvolvimento e,
paulatinamente, causar o esvaziamento populacional pelos brasileiros não índios.
Simultaneamente, pode-se prever o crescimento da população indígena
brasileira nas TI, onde está sob forte influência de ONG ou outras organizações,
muitas sem nenhum compromisso com o Brasil e recebendo o apoio de potências
globais. Estas ONG e organizações não consideram os indígenas como cidadãos
brasileiros e defendem que eles se reúnam em “nações” autônomas. De
fato, em setembro de 2007, a ONU aprovou a Declaração de Direitos dos Povos
Indígenas, que inclui o direito à autodeterminação, a vetar operações
militares e a estabelecer instituições políticas, sociais, econômicas e jurídicas
nas TI. É triste constatar que existem brasileiros e movimentos nacionais que
pensam assim, porém, o mais grave é que o Brasil não votou contra a
mencionada Declaração. E agora? O que falta?
A Guiana anunciou que poderá ceder o controle de seu território amazônico,
vizinho a Roraima, ao governo britânico. Assim, teremos três potências
estrangeiras fazendo valer
seus
interesses na região, apoiadas em espaços físicos,
considerando a Guiana Francesa e o Suriname – ex-colônia holandesa – onde
também existe um movimento que visa reatar laços de dependência com a antiga
metrópole. Inglaterra, França e Holanda apóiam fortemente ONG ambientalistas,
tanto política quanto economicamente.
A história recente nos mostra a questão do Kosovo (Sérvia) onde o
paulatino esvaziamento da região pelos sérvios e o conseqüente crescimento da
população albanesa criaram um fato consumado, que levou à perda da soberania,
pela Sérvia, sobre aquela parte de
seu território. Houve intervenção militar violenta de
potências estrangeiras, com aval da ONU e sob o comando da OTAN. Há poucos
dias, como desenlace facilmente previsto, o Kosovo declarou sua independência.
O arco fronteiriço do Brasil na região está pleno de TI e UC, o que
dificulta a vivificação de nossas fronteiras, mantendo-as como espaços
abertos e difíceis de controlar e defender.
O cenário aqui descrito de maneira sucinta foi estabelecido pelo próprio
País, que acatou pressões externas e internas, criando e potencializando,
assim, a vulnerabilidade já comentada.
5.
SOBERANIA COMPARTILHADA.
Um vazio de poder como o que constatamos na Amazônia não
será permanente. Será ocupado pelo Brasil ou por outra potência, coalizão ou
organismo internacional.
A soberania compartilhada não será, necessariamente,
resultado de uma invasão, conquista ou ação militar direta em toda região. A
pressão internacional em todos os campos do poder, inclusive, com apoio de
grupos nacionais vem comprometendo a nossa soberania, particularmente a partir
do início da década dos 90, por meio de “ações sucessivas”. Chegará o
momento em que estarão estabelecidas as condições objetivas para uma
“resolução” ou “declaração” de potência, coalizão ou organismo
internacional, no sentido de impor a soberania compartilhada na região.
Tais condições
estão sendo delineadas, principalmente, em Roraima, pelas razões já
comentadas, agravadas pela sua posição geo-estratégica mais exposta a ações
militares estrangeiras que o arco fronteiriço a oeste e ao sul da Amazônia.
A perda da
soberania plena sobre qualquer parte do nosso território será um precedente
perigoso pois, além de motivar alguns vizinhos a buscar a revisão de tratados
de limites com o Brasil, vai resultar na reação violenta de setores
importantes da nossa sociedade que não aceitarão tal imposição.
Não é provável uma invasão total da Amazônia, pois seria
praticamente inviável e muito oneroso. Soberania
compartilhada deve ser entendida
como a posse nominal pelo Brasil,
arcando com o ônus da administração, mas permitindo que
a maior parte dos bônus, das riquezas, fique com a “comunidade
internacional”, leia-se as grandes potências.
A
integração da América Latina, onde se insere a América do Sul, é um dos
objetivos nacionais constantes da Constituição Federal (Título I, Art. 4). O
Brasil tem um importante papel a desempenhar nessa integração, fruto de sua
posição geopolítica decisiva nas Bacias do Prata e do Amazonas. No que diz
respeito à América do Sul, a Amazônia Brasileira é o amálgama que unirá os
países condôminos.
Se
o Brasil não exercer soberania plena sobre a sua região amazônica, não terá
um papel decisivo nesse processo de integração, o qual poderá não se
concretizar ou ser conduzido por outro ator.
A
propósito, o Tratado de Cooperação Amazônica, que reúne os países da região,
é uma oportunidade para a proteção dos nossos interesses mas, também, pode
ser uma ameaça, pois os países signatários estão sempre sujeitos a pressões
das grandes potências, havendo o risco de adotarem posições que nos sejam
prejudiciais.
6.
A CAPACIDADE DE DISSUASÃO.
Não se visualiza sua concretização, nem em longo prazo, pois não são
destinados recursos suficientes para
o reaparelhamento das FA, não há
um projeto de
reativação da indústria
de
defesa, apenas as repetidas e não cumpridas promessas, e o
País aceita pressões internacionais em prejuízo de seu pleno desenvolvimento
científico-tecnológico.
O material de emprego militar é quase todo importado, no que se refere
aos equipamentos e armamentos que fazem diferença no campo de batalha. Somos
dependentes da vontade alheia para nos mantermos em operações, até mesmo, por
curto prazo. Esta situação agrava nossa mencionada vulnerabilidade,
considerando agora o campo militar.
Deve-se ter em mente que a defesa da Amazônia começa no Atlântico e no
espaço aéreo. A concretização de um interesse estrangeiro na Amazônia será
buscada mediante a ameaça de paralisação do País através do bloqueio ou da
destruição de pontos sensíveis do território nacional no Sul, no Sudeste, na
plataforma marítima ou no centro de poder. Assim, a defesa da
Amazônia começa
no mar e no céu, com o fortalecimento dos poderes naval e aeroespacial,
concomitantemente com o poder terrestre.
A capacidade de dissuasão militar diante de grandes potências mundiais
ou de organismos de segurança coletiva está longe de ser efetiva. Na
realidade, não existe.
Fica no ar um questionamento. Como pensar que a sociedade, carente de
recursos em diversos setores, vai concordar em empregar parte destes para alcançar
uma capacidade de dissuasão, que julgamos importante, se nós não formos
capazes de mostrar-lhe a necessidade de fazê-lo? Se não deixarmos bem claro o
vulto da ameaça contra a qual ela deve ter tal “seguro de vida”? Se nós
não
temos visão estratégica para prever o que existe “do outro lado da
colina”?
7.
CARACTERIZACÃO DA AMEAÇA.
Definidas as vulnerabilidades do Brasil na região, a cobiça
internacional e a nossa incapacidade de dissuasão militar, pode-se caracterizar
o possível cenário de crise, a médio ou longo prazo, que passamos a descrever
a seguir.
“Os recursos existentes na Amazônia, muitos recentemente
descobertos, passam a ser escassos no mundo e vitais para as grandes potências
e seus aliados, como são os do Oriente Médio na atualidade.
É desencadeada uma intensa campanha em escala mundial de
modo a apresentar o Brasil como um País que não tem condições de gerir a
Amazônia, preservar o meio ambiente, apoiar e proteger as populações indígenas
e coibir o tráfico de drogas e outros delitos transnacionais. Procura-se
mostrar a necessidade de ingerência internacional para assegurar o
desenvolvimento sustentável da região e o aproveitamento de suas riquezas por
“toda a comunidade de nações”, bem como para deter a destruição da
floresta (“pulmão do mundo”), que alegam ser uma das principais causas do
aquecimento global.
Potências, coligadas ou não e com ou sem o aval da ONU, pressionam
ostensivamente o Brasil nos
campos político, psicossocial (propaganda
adversa e
guerra psicológica),
econômico (boicote) e científico-tecnológico (boicote),
aplicando a estratégia indireta, a fim de serem atendidas em seus interesses sem a
necessidade de empregar o poder militar.
O Governo resiste a essas pressões, que comprometem a
soberania nacional, e sofre a escalada dos boicotes e da propaganda adversa a
que se soma, agora, a ameaça, no campo militar, de ocupação, bloqueio ou
destruição de áreas estratégicas sensíveis do território nacional, não
necessariamente na Amazônia. Tentam, assim, evitar uma intervenção com tropa
naquela região, por considerar que o custo poderia ser elevado. Nesse momento,
as potências passam ao emprego da estratégia direta”.
(Na intervenção da OTAN no Kosovo - Sérvia, há alguns anos,
não houve combate terrestre, pois o governo sérvio cedeu após o País sofrer
intensa campanha aérea.).
Este quadro adverso é o provável desfecho da ameaça que
se está desenhando, há cerca de 15 (quinze) anos, por meio de ações
sucessivas que vêm limitando progressivamente a soberania do Brasil na Amazônia.
O País precisa reverter suas vulnerabilidades na região e sua incapacidade de
dissuasão militar, para não dar margem à concretização da ameaça aqui
caracterizada.
8.
O CAMINHO DE VOLTA.
Como se vê, já foram dados vários passos importantes no
aproveitamento e agravamento de nossas
vulnerabilidades na região.
O Brasil precisa reaprender a pensar estrategicamente e a
antever ameaças, para neutralizá-las com oportunidade, bem como ter o cuidado
de não adotar, no presente, medidas que serão exploradas contra nossos próprios
interesses nos conflitos, armados ou não, que, certamente, iremos enfrentar no
futuro.
Quem espera “ver para crer” em uma ameaça não age
pro-ativamente e pagará um preço alto por não ter sido previdente. Quando for
reagir, não estará preparado e será tarde demais.
À atual situação, devemos fazer o “Caminho de
Volta”, também com ações sucessivas, por meio de um Projeto de Integração
da Amazônia, com características como, dentre outras:
- alcance e conscientização nacionais, sendo um Projeto
de Estado, não de governo;
- visão de futuro definida em todos os campos do poder;
- controle das ONG e de outros atores, particularmente
estrangeiros, que atuam na região;
- apoio e ampliação do Programa Calha Norte;
- ações estratégicas e metas sucessivas (paulatinas),
como forma de restringir (administrar) as reações internacionais que vão se
fazer presentes;
- revisão de políticas, atualmente em vigor, sobre meio
ambiente, TI e UC;
- definição dos pólos de desenvolvimento e da
infra-estrutura de apoio, com os incentivos correspondentes;
- focos no desenvolvimento, com preservação ambiental, e
na ocupação e vivificação, assegurando a proteção às populações indígenas;
e
- vontade nacional para enfrentar reações internacionais
com altivez e dignidade.
O Projeto deveria ser conduzido por um Ministério de Amazônia
e sua prioridade seria voltada para os campos político, econômico,
psicossocial e científico-tecnológico mais do que para campo militar, pois
naqueles setores estão nossas vulnerabilidades que exigem neutralização mais
urgente. No entanto, as FA teriam um papel fundamental no apoio e na implementação
das ações estratégicas, como sempre o fizeram, de acordo com suas missões
complementares e subsidiárias. No Projeto, elas deveriam substituir ou
controlar ONG e outros atores que atuam nas TI e UC da região.
9.
CONCLUSÃO.
Creio ter ficado claro que existe uma ameaça concreta à
nossa soberania e integridade territorial. Ela é fruto da vulnerabilidade
apresentada, da falta de vontade política, da cobiça internacional, da falta
de visão prospectiva do Brasil, da demora na integração de um importante espaço
vital para o País, da alienação da sociedade e de nossa fraqueza militar. Tal
ameaça vem sendo construída há cerca de 15 (quinze) anos.
Há condições de revertermos a tendência à concretização
desta ameaça, pois as áreas estratégicas onde as potências estarão
engajadas, prioritariamente, nos próximos anos, não estão na América do Sul.
Por outro lado, o Brasil tem demonstrado ser um País que supera com
agilidade seus
desafios, uma vez que deles tome consciência. Falta, portanto, perceber a ameaça
e compreender seu significado e perigo.
Deve-se ter cuidado com a supervalorização do conceito de
“novas ameaças”, pois pode nos levar ao desvio de nosso adestramento e da
construção de nossa capacidade de dissuasão militar. Tal conceito,
relativamente novo, parece servir ao objetivo manifestado pelos EUA, no início
dos anos 90, de mudar a destinação das FA dos países da América Latina.
“A arte da guerra nos ensina a confiar não na probabilidade
de o inimigo não vir, mas em nossa própria prontidão para enfrentá-lo; não
na eventualidade de ele não atacar, mas antes, no fato de tornarmos nossa posição
inexpugnável” (Sun Tzu).
Nota:
O presente texto atualiza artigo sobre o tema, publicado pelo autor no ano de
2006.
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